Agradecimento

Sozinho com Gabriel. Wandréa tinha ido buscar os meninos na casa do primo. Se há algo que eu considero angustiante é ficar em casa com uma criança. Qualquer uma. É um dos hábitos que herdei de minha mãe. Segundo ela, dias chuvosos causavam-lhe desespero, pois sabia que teria que ficar conosco trancados dentro de casa. Crianças pulam, correm, gritam e brigam e um apartamento não é um local apropriado para isto. Estava cansado do longão de domingo mas, ainda assim, passear pela quadra me é menos cansativo do que ficar em casa e fingir que estou descansando.

Fomos, então, fazer um dos passatempos preferidos de Biel. Ler as quadras dos blocos. Moramos no Bloco J. Dali fomos, em sequência, pelos pilotis dos blocos K, L, M, N, O, P, Q, R, S e T. Paramos na banca de jornal na entrada da quadra para comprar picolé. Não tinha uva mas limão serviu. Também não tinha Mónica e su Pandilla, somente Monica's Gang. Continuamos a ler placas. Aí um garoto surge correndo e chama Gabriel pelo nome.


- Olá Eduardo

O garoto ri.

- Ele tá me confundindo com outro colega. Eu sou o Marcos.

Ele estava na quadra poliesportiva andando de skate com o irmão. Ainda está cedo para voltarmos para casa e acredito piamente que crianças são a melhor distração para crianças. Quem sabe eles não se entrosam um pouco?

- Vamos ver o Marcos andando de skate, Biel?

Uma criança como Gabriel não se socializa facilmente. Mas o menino emprestou-lhe o skate do pai que estava sobrando e ajudou-lhe a se equilibrar em cima dele. Em menos de 5 minutos ele já estava andando direitinho, como se já estivesse há tempos familiarizado com o skate.


Normalmente, as pessoas não convivem bem com a diferença. Neste caso, a diferença se traduz num rótulo escrito "Autista". Vários pontos de interrogação passam por nossas cabeças. Será que ele sofrerá bullying? Será ridicularização pelos seu modo diferente de agir? Será isolado, ainda mais do que ele já opta normalmente por se isolar? O que fazer, caso isso aconteça? Não estaremos sempre lá para o protegermos. Por enquanto, há a tia auxiliar do colégio mas nem sempre haverá alguém para cuidar exclusivamente dele.

Desde que a sociedade escolhe se auto intitular como inclusiva, ela passa a ter a obrigação de incluir pessoas como Gabriel. Não é uma tarefa fácil. Há paradigmas profundamente arraigados a serem mudados. E justamente quando temos a impressão de que todo esse blá-blá-blá não passa de uma ilusão, vem um garoto de 5 anos que acolhe Biel e nos mostra que podemos estar realmente caminhando na direção correta.

A você, Marcos, nosso muito obrigado.

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